TRIUNFO SOBRE A ADVERSIDADE  
Por Stan Griffin, Colaborador Especial da Deaf Friends International

 
Traduzido para o português por Patricia e Walter de Castro

Segregada por 18 anos (1958-1976) porque ninguém sabia como conversar com uma mulher surda e cega, Nellie L. Zimmerman finalmente “renasceu” aos 71 anos de idade e viveu sua vida como se estivesse se compensando pelo tempo perdido. Foi um “... testemunho da vitória do espírito humano sobre as mais difíceis circunstâncias.

 

Nellie freqüentou a faculdade, tornou-se uma conhecida conferencista, uma professora de uma instituição, um lar para meninos surdos ou surdos e cegos e recebeu várias honrarias, inclusive ser nomeada a Profissional Deficiente do Ano em 1979 e ser homenageada com o título de “Cidadã Notável” do Estado de Ohio (EUA) pela Casa dos Representantes do Estado.

 

A vida de Nellie começou em Braddock, Pennsylvania em 1906, onde  nasceu com visão e audição normais. Sua mãe morreu cedo, mas felizmente seu pai cuidou sempre dela com muito carinho.

 

Aos 9 anos de idade, ela ficou completamente surda. A escola pública local recusou sua matrícula, quando ela ia começar o terceiro ano. O senhor Zimmerman contratou uma governanta para ensiná-la em casa. Ela ensinou Nellie a comunicar-se por sinais.

 

A família mudou-se para Massillon, Ohio, e logo depois Nellie começou a perder a visão. Ela aprendeu a leitura Braile antes de ficar totalmente cega, aos 22 anos de idade. A despeito de sua deficiência, Nellie, seu pai e sua governanta procuravam viver uma vida normal. Ela cuidava de suas próprias roupas, limpava a casa, cozinhava e até passeava sozinha pela vizinhança.

 

Em 1951 o senhor Zimmerman faleceu. A governanta foi dispensada e a irmã de Nellie a levou para morar com sua família. Mas, infelizmente, ninguém conseguia se comunicar com Nellie. Ela era compreensivelmente  frustrada e começou a ter explosões de raiva. Nellie era mandada de um parente para outro, sendo, às vezes, internada num asilo. Quando essa solução se tornou impraticável, Nellie foi internada no Hospital Mental Estadual de Massillon. Ela tinha, então, 52 anos de idade.

Ninguém no Hospital era treinado na comunicação com surdos-cegos e, assim, Nellie foi confinada numa ala com 60 mulheres senis e com problemas mentais. Ela vivia em silêncio, sentada numa cadeira de braços e de encosto alto, oculta sob lençóis, soletrando por sinais para si mesma a Oração do Senhor, rememorando sua Bíblia em Braille e praticando  mentalmente complicados jogos de números e palavras.

 

Finalmente, uma voluntária surda do Hospital, Carrie Dixon, a descobriu e elas se tornaram amigas. Quando Carrie faleceu subitamente, seu amigo, Jim Schneck, continuou visitando Nellie. Graças a seus esforços, Nellie foi liberada em Abril de 1976 e mudou-se para uma pensão em Canton, Ohio. Jim levou-a a uma igreja de surdos, onde ela conheceu Emily Street. As duas se deram muito bem e saíam para passeios semanais.

 

Quando Nellie foi despejada de sua casa de cômodos, ela e Emily mudaram-se para um apartamento de dois dormitórios. Elas aceitaram mais uma colega de quarto, uma jovem senhora cega chamada Nancy, que cuidava de Nellie enquanto Emily ia trabalhar. Não demorou muito para que as duas que ficavam em casa se tornassem inimigas.

 

Por causa dos atritos entre Nellie e Nancy, Emily decidiu que deveria deixar seu emprego. Emily percebeu que Nellie era um "verdadeiro gênio mental" e assim, sugeriu a ela freqüentar a faculdade - com a ajuda de Emily na comunicação por sinais das lições do professor. 

 

Nellie revelou-se no Malone College em Canton, saindo de sua concha de maneira extraordinária. Estudou história, literatura, filosofia e a Bíblia. Seu apartamento tornou-se um popular local de reuniões para seus colegas de faculdade e de sessões de estudos noite adentro. E às vezes, eles saíam para dançar.

 

Artigos num jornal local sobre a vida de Nellie como aluna da faculdade, trouxeram pedidos de palestras em classes da faculdade e em grupos da igreja. Emily e Nellie logo se tornaram palestrantes populares em todo o nordeste de Ohio, apresentando mais de 200 programas em igrejas, clubes cívicos e escolas.

 

Nellie e Emily  aceitaram empregos no Lar do Grupo Nova Vida para meninos surdos e surdos-cegos. Nellie era instrutora de habilidade de vida e ensinava os meninos a cozinhar, a ter um ofício e como cuidar de seu dinheiro. Ela era amplamente reconhecida por seu trabalho, sendo  entrevistada para histórias nos jornais e programas de televisão.

 

Emily casou-se com um homem chamado Lloyd Hensel, mas Nellie ficou com ciúmes do relacionamento deles. Ela e Lloyd não se deram bem. Nellie tinha dificuldade em aceitar o casamento e, por fim, a gravidez de Emily.

 

Emily e Lloyd mudaram-se para um apartamento no andar superior e cuidaram de providenciar uma nova moradia para Nellie. Eles a alojaram na Colônia Columbus para Surdos, onde Nellie fez novos amigos e finalmente se apaixonou aos 75 anos.

 

No funeral de Nellie, uma das pessoas presentes era a escritora Rosezelle Boggs-Qualls. Lá, ela foi apresentada a Emily Street Hensel. Dois anos mais tarde, Emily pediu à senhora Qualls para escrever a biografia de Nellie, que foi intitulada “Walking Free: the Nellie Zimmerman Story” (Livre para Caminhar: a História de Nellie Zimmerman), publicada pela Densmore Reid Publications, 67 South 24th Street, Richmond, Indiana.