A PRIMEIRA COMEDIANTE DEFICIENTE AUDITIVA
DOS ESTADOS UNIDOS
Stan Griffin
Colaborador Especial da Deaf Friends International
Quando Kathy Buckley era uma menininha, ela assistia TV junto com sua família. Sempre que seus pais e irmãos riam, ela também ria. Se eles chorassem, ela também chorava, só para não ficar de fora. Ela não tinha idéia do porque da reação deles, porque Kathy era surda. Uma noite, ela viu Red Skelton atuando como "Freddie the Freeloader" (Freddie, o penetra) e ela riu sozinha. Pela primeira vez, ela estava reagindo a um ator que não estava falando. Mais tarde ela disse: "De certa forma, Red Skelton foi o primeiro a me ensinar o valor da comunicação – não das palavras, mas do que o coração tem a dizer". Ao encontrar-se com Skelton vários anos mais tarde, ela lhe contou essa história e eles se abraçaram" "...de forma que os nossos corações puderam se unir em um..."
O professor de ciências da Kathy no colegial deu a ela um bom conselho: "Aprenda a usar aquilo que você TEM em vez de preocupar-se com o que você NÃO tem!" Naquela altura de sua vida, ela já havia vivenciado mais do que a sua quota de problemas:
Sua perda auditiva não foi descoberta até quando ela já estava no segundo ano primário.
Ela tinha um distúrbio da fala que lhe criava problemas ao se comunicar com outros.
Haviam-lhe dito que ela era retardada mental e ela até chegou a passar algum tempo em escolas especializadas.
Quando ela estava na sexta série, ela já tinha 1,80m de altura.
E ainda havia mais por vir!!
Até os oito anos de idade, a surdez de Kathy não havia sido diagnosticada ou explicada a ela. Ela achava que todo mundo ouvia uns estrondos e uns barulhos e não tinha nem idéia de como as palavras deviam soar. Sem saber exatamente o que era o seu problema, Kathy teve que se virar por sua própria conta. Desde muito cedo, ela aprender a ler os movimentos labiais. Ela olhava para as outras pessoas e imitava a maneira como elas agiam.
No jardim da infância e no primeiro ano primário, a Kathy foi considerada como "bagunceira" e "uma aluna fraca". Seu distúrbio da fala foi chamado de "língua preguiçosa". Sua voz era nasal e ela arrastava as palavras, algumas vezes deixando escapar combinações de palavras.
Ninguém sabe ao certo o que causou o problema da Kathy. Ela tinha o fator RH negativo e precisou de uma transfusão total de sangue 15 minutos depois de nascer. Uma demora de doze horas na transfusão poderia ter afetado a sua audição que, por outro lado, também pode ter sido causada pela meningite que contraiu quando tinha cinco anos de idade.
Uma vez que seus pais finalmente tomaram consciência de sua dificuldade auditiva, eles a mandaram para o Cleveland Hearing and Speech Center (Centro de Audição e Fala de Cleveland), já que sua família era do norte de Ohio. Lá ela foi examinada e recebeu seu primeiro aparelho auditivo: um Zenith Diplomat de 1961. O aparelho era pesado, grandalhão e produzia sons muito ALTOS. Ela não gostou nada dele e por isso raramente o usava.
Kathy freqüentou a Escola Westfield/Dunbar em East Cleveland. Por um curto período, ela teve aulas com alunos surdos, alguns retardados mentais e alguns com deficiências físicas (cegueira, falta de algum membro, etc.)
Ao passar para a Westfield no terceiro ano, a Srta. Daily a ensinou a falar e foi a primeira professora que teve uma influência positiva na vida de Kathy. Ela passou o quarto ano na escola primária de York. Lá só havia alguns alunos com aparelhos auditivos e Kathy tentou esconder o seu, para não dar muito na vista e chamar a atenção. Geralmente, ela deixava o aparelho em casa, contando apenas com a sua leitura labial.
Ao passar para a sexta série, Kathy tinha crescido rapidamente e chegado a 1,80 m de altura. Alguns de seus apelidos eram: "Pinote", "Pé de Trigo", "Papai Pernalonga" e "Gigante Verde".
No colegial, a professora de ciência e saúde conseguiu interessá-la no livro do ano – primeiro como fotógrafa e, no seu último ano, como editora! Isso a tornou uma pessoa muito mais segura.
Kathy já tinha começado a trabalhar um pouco como modelo para as lojas Gold Circle antes de se formar. Ela continuou com esse tipo de trabalho até que um acidente de automóvel a deixou com severos cortes no rosto, quando ela teve que levar 32 pontos. Com freqüência, ela tinha que ir ao hospital já que sentia tonturas e dores de cabeça e chegou até a passar algum tempo em uma instituição para pessoas com problemas mentais. A mãe de uma amiga trabalhava lá e conseguiu tirá-la de lá dizendo "Aqui não é o seu lugar!"
Kathy retomou a sua carreira de modelo na Gold Circle e mudou-se para um apartamento em uma casa onde havia várias senhoras de idade. Quando a conheceram, todas acabaram se tornando "avós adotivas" .
Uma viagem ao Lago Erie em 1974 foi uma experiência desastrosa. Enquanto Kathy estava tomando sol na praia, um jipe guiado por um salva-vidas a atropelou e passou por cima dela. Os ferimentos resultantes foram extremamente graves. Na verdade, quando ela estava na ambulância a caminho do hospital, um dos enfermeiros pensou que ela estivesse morta!
O nariz da Kathy estava quebrado. Ela teve vários ferimentos internos e os nervos na parte inferior de suas costas e pernas foram danificados. Por algum tempo, ela sofreu de "paralisia somática mental". Um médico lhe disse que ela poderia nunca mais voltar a andar. Em um período de um ano e meio, ela passou muito tempo em hospitais (e em cadeiras de rodas) para tratamento e reabilitação. Por um tempo, ela sentiu não somente torpor nas pernas, mas também que estavam formigando e queimando. Depois de muito trabalho, ela conseguiu voltar a andar e a dirigir.
Em 1976 Kathy sofreu novo acidente de carro. Ela tinha voltado para o seu emprego nas lojas Gold Circle e ia para o trabalho, quando perdeu a direção do carro numa ponte, caindo em um riacho. Kathy perdeu algumas semanas fazendo tração e estava tomando uma grande quantidade de medicamentos. Chegou a um ponto em que começou a temer ficar viciada nisso e então parou de tomar todos os remédios. E como ela dizia, "dependia de mim salvar a mim mesma".
Kathy mudou-se para Los Angeles, Califórnia em 1978. Lá ela conseguiu aposentar-se por invalidez, "fazendo-se de surda-muda". Alguns empregos em que trabalhou foram de gerente de armazém, garçonete e numa oficina mecânica. Ela perdia empregos por causa da dificuldade de entender as instruções.
Com uma grande indenização do seguro pelo acidente com aquele jipe, Kathy matriculou-se num escola de desenhistas de moda. Ela completou o curso e até ganhou o prêmio como melhor desenhista do ano de sua formatura. Kathy podia conseguir muitos empregos, mas permanecer neles não era tão fácil.
A essa altura, ela teve um novo choque. Foi diagnosticada como tendo câncer cervical. Seguiu-se um ano de exames, tratamentos e uma operação. Ao retornar para um check-up após seis meses, seu médico lhe disse que teria que ser operada mais uma vez. Depois de pensar muito, decidiu não se submeter mais a quaisquer operações. E disse: " eu decidi fazer valer a grande dádiva que é o livre arbítrio e começar a assumir a responsabilidade pela minha própria vida. Mudei minha dieta. Mudei minha atitude com relação a mim mesma e perdoei as pessoas que me feriram..." Kathy foi inspirada pelas palavras de seu tio Frank: " o Medo bateu à minha porta. A Fé a abriu. Ninguém estava lá". Até 2001, Kathy está ainda livre do câncer.
Em seguida Kathy empregou-se num centro de aeróbica e então tornou-se uma terapeuta da Vita-Fit, uma clínica médica e quiroprática. Para obter dinheiro para o treinamento em massagem-terapia, ela foi ao Departamento de Reabilitação Vocacional da Califórnia. Um requisito foi que ela fizesse um teste de audição. O teste mostrou que ela não ouvia normalmente, que era inteligente – não retardada – e foi oficialmente declarada como deficiente auditiva. Outro requisito para os subsídios do Departamento de Reabilitação foi que ela tinha que se adaptar a um aparelho auditivo – E USAR o aparelho! A Tecnologia tinha feito rápidos avanços desde os anos 60 e ela se surpreendeu com seu novo aparelho! Kathy podia ouvir coisas que nunca tinha ouvido antes. E ela nem tentou esconder este seu novo aparelho!
Kathy conseguiu a sua licença de massagista terapêutica e, à medida que trabalhava com clientes, começou a reparar como o riso os ajudava a melhorar suas vidas. Cada vez mais, ela ia incorporando o seu senso de humor em seu trabalho, obtendo resultados positivos.
Kathy alimentou sempre um antigo desejo de tornar-se atriz. O sucesso das sessões de massagem a incentivou a ir atrás do seu sonho. Ela entrou em um concurso de comediantes chamado "Stand-Up Comics Take A Stand" ("Comediantes, mostrem o seu ponto de vista"), promovido para angariar fundos para as crianças com paralisa cerebral.
Para preparar-se para o concurso, Kathy alugou vídeos de comédias, apresentou-se na sala de estar de amigos e parentes e até matriculou-se em um curso de comédia. Ela aprendeu a encurtar estórias para chegar logo à parte engraçada e tentou se sentir mais à vontade diante do microfone.
Quando Kathy se apresentou, ela foi aplaudida de pé e ganhou o concurso, o que a levou às semifinais e então às finais. (Esse evento foi organizado como um torneio esportivo.) Ela terminou em quarto lugar em um concurso de que participaram 80 comediantes experientes. Essa ótima colocação a inspirou a transformar o trabalho como comediante em uma carreira.
Kathy começou com apresentações em clubes locais e evoluiu para compromissos em todo o país. Assim que o trabalho começou a rolar, ela passava onze meses por ano "na estrada". Sua primeira apresentação de destaque foi em Las Vegas, no "Bally's Catch A Rising Star".
Suas aparições na televisão começaram com um programa chamado "Funny People" (Gente Engraçada). Ela apresentou-se em grandes clubes e seu show foi gravado e vendido para canais de TV a cabo. Um marco em sua carreira foi a noite em que ela participou do programa "The Tonight Show with Jay Leno" (O Show de Hoje à Noite com Jay Leno). Ela também foi convidada para os programas "Live with Regis and Kathie Lee" (Ao Vivo com Regis e Kathie Lee), "Entertainment Tonight" (Entretenimento Hoje à Noite) e "Good Morning, America" (Bom Dia, América). Kathy também apareceu em um papel dramático na série "Um Toque de Anjo".
Nos anos 90, os clubes de comédia já não eram tão populares. Kathy empregou-se com Milt Wright e Associados. O programa deles, chamado "Windmills" (Moinhos de Vento), conscientizava empresários com relação a "... questões relativas a deficiência, com o objetivo de ultrapassar barreiras de preconceito que dificultavam com que as pessoas deficientes fossem contratadas..." Com o tempo, ela passou a usar histórias de sua própria vida, à medida em que combinava treinamento e comédia.
Kathy saiu da Wright e Associados, mas continuou a dar workshops por conta própria. Com isso, ela envolveu-se cada vez mais com organizações para pessoas com deficiências, especialmente aquelas relacionadas aos direitos das crianças.
Estes são trechos da mensagem de Kathy: "Todo mundo pode escolher VIVER, e não só existir... Focalize no que é bom e abra mão do que é ruim... Tudo o que é ruim tem limites, assim como tudo o que é bom... Divirta-se!... As crianças devem ter direito às suas próprias opiniões..."
Em seguida, Kathy juntou-se ao corpo docente do "Programa de Mestrado de Vida". Dentre os seus colegas professores estavam Tony Robbins, General Norman Schwarzkopf e Deepak Chopra. Ela realizou workshops de motivação em todos os Estados Unidos.
Um documentário de TV ganhador do Emmy, "I Can Hear the Laughter" (Eu Consigo Ouvir o Riso) surgiu em 1991. Era sobre a vida de Kathy. Ela foi indicada para o Prêmio Comédia Americana cinco vezes.
Em 1997, Kathy e alguns de seus amigos criaram um monólogo para Kathy, na esperança de que a HBO os deixasse apresentá-lo na TV. O show se chamava: "Don't Buck With Me" (Não Mexa Comigo). Quando o plano falhou, eles alugaram um teatro, onde fizeram apresentações por vários meses. O show ganhou quatro prêmios: um Los Angeles Ovation Award – um prêmio equivalente ao Emmy, de Nova York – de Melhor Texto, Drama-Logue Awards de Melhor Texto e de Melhor Performance e o Media Access Award de Melhor Peça do Ano. Mais tarde, o mesmo show, agora com o nome "Now Hear This!" (Escuta só!), foi produzido fora do circuito da Broadway, em Nova York (1999) e permaneceu em cartaz por três meses, recebendo críticas "delirantes".
Kathy continua a militar pelos direitos dos deficientes. Em 1997, ela foi reconhecida pela cidade Hope como personalidade exemplar do ano.
Kathy atribui a Deus muito do crédito pelo que ela tem podido fazer, porque "....Ele colocou muitas pessoas extraordinárias em meu caminho...". Ela acha que "o que você é, é presente de Deus para você - o que você faz de você mesmo é o seu presente para Deus..." e "Fé é ter a paciência de esperar, sabendo que todas as coisas serão feitas a Seu tempo...".
Em 2001, Kathy apareceu num especial da PBS: "Kathy Buckley: Sem Rótulos, Sem Limites". No mesmo ano, um livro escrito por Kathy foi publicado: "If You Could Hear What I See: Lessons About Life, Luck, and the Choices We Make" (Se Você Pudesse Ouvir o que Eu Vejo: Lições Sobre a Vida, a Sorte e as Escolhas que Fazemos).
Desde o início de sua vida, Kathy aceitou os rótulos colocados nela por adultos: "retardada", "baixo desempenho", "bagunceira". Finalmente, vendo que teve oportunidades em sua vida, ela agora fez o "design" de seus próprios rótulos: atriz, comediante, escritora, oradora e autora.
Kathy Buckley está, sem dúvidas, vivendo sua vida "ao máximo" - e adorando tudo isso!