O HOMEM DA "MÚSICA SURDA"

Enquanto ele freqüentava a Escola Kansas para Deficientes Auditivos, lhe diziam que sendo surdo ele não teria como ter sucesso no mundo da música. Lá ele apanhava regularmente dos colegas mais velhos que não acreditavam quando ele dizia que podia tocar bateria. Até que ele provou que eles estavam errados e ainda ganhou $20 dólares na aposta. Depois que ele se formou na Escola Kansas, foi atrás de seu sonho e se tornou um dos primeiros bateristas profissionais surdos, até se tornar o primeiro homem surdo a estar no top hit da MTV.
Ele também fez muito para comunicar os seus sons diretamente para os fãs deficientes auditivos. O show que ele apresenta sozinho apresenta sua "música surda", com um novo tipo de ritmo, vibrações dos tambores, tempos e efeitos visuais como luzes piscando, gelo seco e balões. Muitos ouvintes, incluindo outros deficientes auditivos, acham difícil de acreditar que ele toque e componha tão bem. O que ele tem a dizer é: "Eu vou sentindo as vibrações de um jeito ou de outro."
Hoje, Shawn Dale Barnett participa em eventos relacionados aos surdos e ensina música em várias escolas para deficientes auditivos, ajudando os alunos a entenderem vibrações e ritmos. Ele conversa com eles sobre as experiências de sua carreira, sua família e estilo de vida e como aprendeu a viver em um mundo de ouvintes. Ele continua a oferecer uma apreciação da música à comunidade de surdos.
Barnett nasceu totalmente surdo em 1963 e passou os primeiros anos da sua vida em Leavenworth, em Kansas. Aos seis meses de idade, vários tumores foram removidos de seu braço esquerdo. Parte das seqüelas foram permanentes e por isso o seu braço ainda apresenta alguma fraqueza. Mas isso não afetou a sua habilidade de pegar em um bastão de bateria. Muito cedo, ficou óbvio que Barnett podia sentir os sons musicais. Quando ele tinha cinco anos, ele começou a tocar um tambor. Sua família ficou impressionada com a sua capacidade de "manter o ritmo". Nas palavras dele, "Eu tinha um ritmo natural".
Uma das amigas de Barnett viria a ser um ídolo da música: Melissa Etheridge. Os dois conversavam com freqüência sobre os seus destinos no show business e sobre os seus "sonhos de grandiosidade".
Enquanto ele estava na Escola Kansas para Deficientes Auditivos em Olathe, Barnett era desencorajado de perseguir os seus sonhos de se tornar um músico. Quando ele tentou contar a seus colegas sobre tocar bateria, foi ridicularizado e chegou a apanhar. Logo antes de sua formatura em 1981, ele pôde convencê-los. Em um bar da cidade, chamado "Clown", Barnett apostou $20 dólares com alguns alunos da Escola que ele podia tocar bateria com a banda que tocava naquele bar. O líder da banda concordou em deixar Barnett "sentar" e ele simplesmente "agitou a casa"! Ele saiu dali com $20 dólares no bolso e com a forte convicção de que poderia viver de tocar bateria. Desse dia em diante, ele se considerou um "profissional".
Tendo sido rejeitado por seus colegas, Barnett entrou para o mundo dos ouvintes, nunca mencionando sua surdez, a menos que fosse diretamente perguntado sobre isso. Sua vida teve seus altos e baixos, seus triunfos e suas tragédias. Sobre isso, Barnett diz: "Ser um homem surdo no mundo do rock não é nada fácil". Contudo, ele continua a " ...destruir os mitos sobre os músicos surdos..."

Logo depois de se formar na Escola Kansas, Barnett perdeu sua filha de um ano de idade devido a síndrome da morte súbita do lactente. Esse incidente foi, mais tarde, a inspiração para "My Baby, My Child" (‘Meu Bebê, Minha Criança’), uma das canções que compôs. (Ele escreve as letras.)
Uma viagem a Hollywood em 1983 com a sua banda (incluindo o seu irmão Steven Todd Barnett) deu início a um período de seis meses em que passaram "vivendo nas ruas" e "crescendo rápido". Então ele se juntou à banda que evoluiu até se tornar a "Alice-in-Chains" de hoje e participou de um tour, abrindo para grupos como "REO Speedwagon", "Skid Row", "Warrunt", "White Lion" e "L A Guns".
Em 1987 Barnett compôs uma canção, "Leave the Light On" (‘Deixe a Luz Acesa’), que foi gravada por Belinda Carlisle. Essa canção chegou a alcançar o sétimo lugar na parada de sucessos "Billboard's Top Ten".
Barnett retornou para Kansas e abriu o seu próprio negócio: S.D.B. Entertainment. Nesse ano, ele lançou o seu primeiro LP com cinco canções: "Silents in Black N' White (Music from the Soul of A Deaf Man)" (‘Silentes em Banco e Preto - Música da Alma de um Homem Surdo’). Seu irmão também participou, tocando guitarra e participando dos vocais. No LP havia três solos de bateria e mais as seguintes canções escritas por "Bury Me in the Sand" (‘Enterre-me na Areia’ – sobre a solidão de Barnett no seu tempo de escola) e "Rosemary's Garden" (‘O Jardim de Rosemary’ – sobre Rosemary Kennedy, a irmã retardada mental do Presidente John Kennedy).
Segundo Barnett, ele escreveu esta última canção após ler um artigo sobre a Kennedy "esquecida". Tentando imaginá-la no Jardim das Rosas da Casa Branca, ele criou dela uma imagem mental como "… uma figura solitária vagando... em um vestido branco..." Barnett sentiu uma conexão com a Srta. Kennedy porque "... existe ...um estigma de que ser surdo é como ser retardado..." Essa canção também foi lançada como um single e vendeu 25.000 cópias na Internet.
Barnett apresentou-se em todos os 50 estados dos Estados Unidos e em cinco outros países.
Em diferentes momentos, Barnett tocou diversos tipos de múscia: rock, country, pop, blues, clássica, rap, alternativa. Ele desenvolveu sons que foram rotulados como "música surda". Esses sons são produzidos somente com percussão, juntamente com efeitos visuais.
Nos últimos quatro anos, Barnett concentrou-se em sua própria cultura, " ... reconectando-se com a comunidade surda... " No ano passado ele apresentou o seu show solo a mais de 200.000 pessoas, apareceu em artigos de jornais e em programas de televisão para surdos e deficientes auditivos.
Barnett está disponível para tocar em eventos freqüentados por fãs da música surda, onde ele toca e oferece balões, alto-falantes, fumaça, luzes e flashes e "pyros" (flashes e fogos de artifício).
A profundidade dos sentimentos de Barnett quanto a sua música reflete-se nessas colocações pessoais: "O baterista é quem mantém o ritmo dos corações da sociedade!" Como um encorajamento aos jovens músicos surdos, ele diz: "Nós não podemos mesmo ouvir o que os críticos estão dizendo!"

Stan Griffin
Colaborador Especial da Deaf Friends International

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