O HOMEM QUE VEIO DE MILAN

por Stan Griffin, Colaborador Especial da Deaf Friends International

Traduzido para o português por Patricia e Walter de Castro

A história registra muitos paradoxos (fatos que parecem ser contraditórios entre si), mas nenhum mais estranho do que este: duas das maiores invenções acústicas (que dependem da habilidade de se ouvir sons) forma desenvolvidas por um homem parcialmente surdo.

Esse homem foi Thomas Alva Edison. Suas invenções foram o fonógrafo e o transmissor de carbono para o telefone. O transmissor de carbono, um aperfeiçoamento do instrumento de Alexander Graham Bell, usava pedaços de carbono para proporcionar poderes ilimitados à voz do usuário.

Antes de morrer aos 84 anos, Thomas Edison patenteou 1,093 invenções. Entre elas constam alguns dos inventos mais úteis e práticos jamais concebidos, como o projetor de imagens, a lâmpada elétrica, o registrador de inventário and a pilha alcalina. Ele é freqüentemente considerado "o maior inventor de todos os tempos", um "mago" e um "mágico".

Edison nasceu no dia 11 de fevereiro de 1847 em Milan, Ohio. Quando jovem, todos os chamavam de "Al", em vez de "Tom" ou "Tommy". Quando ele tinha sete anos, sua família se mudou para Port Huron, Michigan. Aos doze anos, ele trabalhava como jornaleiro, na Grand Trunk Railroad, a estrada de ferro que ia de Port Huron a Detroit.

Edison vendia jornais, sanduíches, frutas e doces aos passageiros. Quando o trem fazia paradas, ele saia para a plataforma para vender para as pessoas que se acumulavam ali.

Durante esse período de sua vida, a surdez de Thomas Edison começou a se tornar evidente. Quando perguntado, mais tarde, sobre a sua origem, ele contou sua versão, que incluía dois incidentes.

O primeiro aconteceu num dia em que Edison estava atrasado ao voltar para o trem quando este estava deixando a estação. Seus braços estavam carregados de jornais enquanto ele corria ao lado do trem. O condutor, querendo ajudar, puxou-o para dentro de um vagão de carga PELAS ORELHAS! Segundo Edison, " ... eu senti alguma coisa estalar dentro da minha cabeça... Minha surdez começou nesse instante e nunca mais progrediu..."

Um segundo episódio envolveu um laboratório que Thomas Edison obteve a permissão de montar em um vagão de bagagem vazio. Ele estocou o laboratório com vidros de produtos químicos e passava o seu tempo livre fazendo experimentos. Alguma coisa saiu errada e um incêndio começou.

O oficial responsável pelas bagagens ajudou Thomas Edison a apagar as chamas, " ...queimando-se gravemente..." enquanto fazia isso. O oficial estava obviamente consternado e puniu Thomas Edison dando tapas ou batendo várias vezes nas orelhas dele com as mãos. Segundo seu relato sobre esse incidente, ele apanhou " ...com tanta severidade que eu me tornei meio surdo depois desse incidente..."

Outras teorias sobre sua surdez são científicas. Uma delas foi proposta por um médico que cuidou de Thomas Edison quando este era já adulto. Ele acreditava que a surdez fosse causada por uma "doença degenerativa congênita" (presente já desde o nascimento) que foi desencadeada por um trauma (um choque)".

Durante a infância, Thomas Edison teve uma série de infecções de ouvido que não foram propriamente tratadas. Pelo menos em uma delas, houve a retenção de fluido no ouvido médio. Artrite também foi mencionada como causa. Além disso, ele teve escarlatina.

É mais provável que a verdadeira causa da deficiência auditiva de Thomas Edison seja uma das explicações médicas. Mas, seja lá qual for a razão, ele uma vez disse: "Eu não ouço o canto de um pássaro desde que tinha treze anos".

Thomas Edison desenvolveu um grande interesse por telegrafia e podia ser facilmente encontrado por volta dos escritórios do telégrafo da rodovia. Quando ele salvou o filho do oficial mestre da estação Mount Clemens de ser atingido por um vagão de carga desgovernado, foi recompensado com lições de telegrafia. Logo ele se tornou bastante hábil com os pontos e traços do Código Morse. Mais tarde, quando Thomas Edison teve filhos, deu a dois deles apelidos "telegráficos": sua filha Marion era chamada de "Dot" (ponto) e seu filho Tom Jr. era conhecido por "Dash" (traço).

Aos 16 anos de idade, Edison começou no seu primeiro emprego como telegrafista em Port Huron. Sua surdez não o impediu de operar o telégrafo e ouvir os sinais. Ao contrário, segundo o próprio Thomas Edison, ela o ajudou a desligar-se do pandemônio que era uma sala cheia de telegrafistas trabalhando ao mesmo tempo.

Durante um período de cinco anos, Thomas Edison foi um "telegrafista cigano", mudando de um emprego para o outro em diferentes locais do centroeste dos Estados Unidos. Aos 20 anos, ele havia aprimorado sua técnica e era um dos telegrafistas mais rápidos da região.

Foi durante esse período da vida de Thomas Edison que um incidente aconteceu em Louisville, Kentucky. Ele havia comprado 20 livros em um leilão e havia pedido que os entregassem no escritório de telegrafia onde ele trabalhava. No final do expediente, ele pendurou os livros nos ombros e foi para casa. A essa hora, já estava escuro e Thomas Edison chamou a atenção de um policial desconfiado que pensou que talvez sua carga fosse de livros roubados.

O policial gritou para que ele parasse. Thomas Edison não o ouviu e continuou andando. Então o policial deu um tiro de advertência . Felizmente, a situação se resolveu sem maiores complicações.

Um emprego em Boston deu a Edison o tempo livre de que ele precisava para estudar e fazer seus experimentos. Ele inventou uma máquina para ser usada em organizações legislativas (como o Congresso americano) quando fosse o momento de votar para um projeto de lei. Através da pressão de um botão, o voto de cada representante (pró ou contra) seria registrado automática e instantaneamente em um disco.

Ao reunir-se com um comitê do Congresso, em Washington, D.C., Edison ficou sabendo que sua idéia estava sendo rejeitada por "razões políticas, e não por razões práticas". A partir desse momento, Edison decidiu adotar a seguinte política com relação às suas invenções: "Primeiro, tenha a certeza de que a invenção é desejada ou necessária e só então vá em frente".

Em 1868, Edison já era um inventor em tempo integral. Ele patenteou um indicador aprimorado para a bolsa de valores que lhe garantiu uma boa remuneração. Juntamente com dois amigos, Thomas Edison abriu uma loja em Newark, New Jersey para fabricar alarmes de incêndio, alarmes contra roubo e dispositivos elétricos para uso com o telégrafo. Logo, ele contava com 300 funcionários trabalhando em suas invenções, que em um dado momento chegaram a 50, em diferentes estágios de desenvolvimento.

Em Newark, Edison conheceu Mary Stillwell. Segundo ele, enquanto estavam namorando, Edison usava sua surdez como motivo para sentar-se perto dela (para poder ouvir e que ela dizia). Eles se casaram em 1871.

Foi em 1876 que Thomas Edison e seus sócios mudaram a sua oficina para Menlo Park, Nova Jérsei. Logo no ano seguinte ele desenvolveu com sucesso o fonógrafo e o transmissor de carbono para telefones. Outra contribuição feita por ele ao telefone, foi o hábito de se atender o telefone dizendo a palavra "Alô". Antes disso, as pessoas perguntavam "Você está pronto para falar?" ou alguma pergunta semelhante quando faziam ou recebiam uma ligação.

Enquanto Thomas Edison estava fazendo os seus experimentos com o telefone, ele tinha que depender de seus assistentes. Um dizia, "Eu tenho que gritar para falar com ele". A certa altura, enquanto testava o transmissor, eles mandaram um sinal através de um relé que Thomas Edison estava segurando com os dentes!

O fonógrafo era a descoberta preferida de Thomas Edison. Ele a chamava de "máquina de falar" e supostamente gastou mais de 3 milhões de dólares em seu desenvolvimento. Ele consistia em um cilindro coberto com papel de alumínio. Uma ponta aguda era pressionado contra o cilindro. Conectados à ponta, ficavam um diafragma (um disco fino em um receptor onde as vibrações eram convertidas de sinais eletrônicos para sinais acústicos ou vice versa) e um grande bocal. O cilindro era girado manualmente conforme o operador ia falando no bocal (ou chifre). A voz fazia o diafragma vibrar. Conforme isso acontecia, a ponta aguda cortada uma linha no papel de alumínio.

Quando a gravação estava completa, a ponta era substituída por uma agulha; a máquina desta vez produzia as palavras quando o cilindro era girado mais uma vez. Thomas Edison trabalhou nesse projeto em seu laboratório enquanto recitava "Mary Tinha um Carneirinho " e reproduzia a gravação.

Muitas pessoas do público em geral sabiam que Thomas Edison tinha uma deficiência auditiva. Ele recebeu centenas de cartas de pessoas que compartilhavam o seu problema, todas elas implorando a ele que desenvolvesse um aparelho que as ajudasse a ouvir melhor. Thomas Edison colocou dois de seus assistentes para trabalhar no seu "aurofone", mas não se obteve nenhum resultado de seus esforços.

Vários médicos também enviaram cartas a Thomas Edison oferecendo-se para curar a sua surdez. Ele sempre recusou. Aparentemente, uma tentativa anterior havia falhado, fazendo o seu problema piorar.

Em 1879, Edison obteve êxito ao projetar uma lâmpada elétrica - uma forma barata e de pequenas dimensões de se utilizar eletricidade para se produzir luz. Antes de seu trabalho luz a gás era usada nas residências e nas ruas da cidade. Elas representavam um risco de incêndio e também continham venenos perigosos.

À medida em que Thomas Edison trabalhava em direção à sua meta, ele " ... considerou 3.000 teorias ..." Num período de um ano, ele testou diversos filamentos diferentes na lâmpada até encontrar um que se inflamava e brilhava sem derreter quando a eletricidade passava através dele. Ele finalmente decidiu-se por algodão enrolado em carbono e assado. (Mais tarde bambu foi utilizado e, por fim, ele optou por um fio de tungstênio).

Thomas Edison bombeou o ar para fora da lâmpada de vidro (criando um vácuo dentro dela), instalou um filamento e fez a eletricidade passar através dela. A lâmpada funcionou por 40 horas e o teste foi considerado um sucesso.

Edison tinha mais de 100 pessoas entre os seus funcionários trabalhando em interruptores, soquetes, lanternas, isolantes e outros implementos relacionados com o projeto. Eles desenvolveram um dínamo para fornecer energia a sistemas de luz elétrica. Três anos mais tarde (1882) ele colocou em operação a primeira estação comercial de luz elétrica.

A esposa de Thomas Edison faleceu em 1884. Dois anos mais tarde ele voltou a se casar - o nome da nova Sra. Edison era Mina.

Uma "fábrica de invenções" (um novo laboratório) foi inaugurado em West Orange, Nova Jérsei em 1887. Foi lá que ele criou a sua câmara (quintógrafo) e o seu projetor (quintoscópio) para filmes animados, no ano de 1891. Eles foram os primeiros modelos práticos.

O quintoscópio era um pequeno tipo de caixa dentro da qual se "espiava". Dentro dessa caixa o filme de animação era projetado e era visto por uma pessoa de cada vez, através de um buraco no topo. Um outro inventor criou, mais tarde, um projetor para exibir filmes para todas as pessoas ocupando uma sala, todas de uma vez.

Vinte anos mais tarde, Thomas Edison conseguiu construir, com sucesso, um quintofonógrafo que possuia uma tela ligada a um de seus fonógrafos: uma das primeiras versões do "cinema falado".

Thomas Edison freqüentemente usava a sua surdez como desculpa para não participar de eventos sociais. Ele foi ficando cada vez mais desconfortável em grandes grupos. Contudo, enquanto morava em Nova Jérsei, Edison e sua esposa costumavam ir à cidade de Nova Iorque para assistir a produções de teatro. Eles sempre tentavam sentar-se nas primeiras fileiras. Ainda assim, Thomas Edison tinha problemas para entender diálogos, mas ele gostava imensamente de ópera leve.

Nas poucas vezes em que os Edison compareciam a situações formais, Thomas dependia da ajuda de sua esposa. Enquanto eles ainda eram namorados, ele havia ensinado o Código Morse a ela. À medida em que as pessoas iam conversando, Mina ficava com a mão sobre o joelho do marido. Ela ia reproduzindo para ele em Código Morse o que as pessoas iam falando de modo que ele pudesse acompanhar a conversa.

Thomas Edison fez uma apresentação especial ante a Academia Nacional de Ciências em Washington, D.C. para exibir o seu fonógrafo (1890). Ele foi apresentado a uma grande quantidade de pessoas, mas conduziu a sua apresentação sem dizer uma palavra.

Edison declarava com freqüência que sua surdez era uma vantagem em seu trabalho, forçando-o a concentrar-se no problemas que tinha a resolver, ignorando as distrações. Ele também acreditava que ela permitia a ele " ... ouvir melhor do que qualquer outra pessoa...". Ele disse: "No meu isolamento... é que eu tenho tempo de raciocinar sobre as coisas. A maior parte do stress dos nossos tempos modernos... chega até nós através de nossos ouvidos..."

Durante a sua meia-idade, Thomas Edison passou por uma série de problemas de saúde nos ouvidos e por várias operações. Em Fort Myers, na Flórida, ao instalar um novo laboratório, ele desenvolveu um abcesso abaixo de um de seus ouvidos. Para resolver esse problema, ele foi operado com êxito. Em 1905 ele foi operado de seu ouvido esquerdo. Em 1908 ele sofreu abcessos no mesmo ouvido, tendo então que passar por uma outra série de operações, das quais pelo menos uma foi uma operação de emergência.

O cabelo de Thomas Edison tornou-se completamente branco quando ele tinha 23 anos. Quando conversava com alguém, ele inclinava a cabeça ligeiramente e seu olhar se fixava na pessoa com quem estava falando. Isso lhe dava a aparência de estar prestando uma atenção especial.

Fotos mostram-no arqueado sobre o seu fonógrafo com a sua cabeça " ... praticamente enfiada na trompa..." (um anexo para amplificação). Sua mão direita está em concha sobre o ouvido. Apesar de que não se pode saber disso olhando para uma fotografia, ele geralmente ligava o fonógrafo a todo volume!

"A Day With Tom Edison" (Um Dia com Tom Edison) foi lançado em 1920 como um filme mudo. Ele apresentava, entre outras coisas, uma conversa de Thomas Edison com um assistente. Thomas Edison coloca sua mão em concha no lado de sua cabeça e o assistente grita no ouvido de Edison. O "chefe" franze as sobrancelhas e responde.4

Thomas Edison tinha uma técnica especial para ouvir música de piano em sua casa. A uma certa altura, vários pianistas foram convidados a se apresentar, com a possibilidade de serem contratados pela empresa de Edison. Conforme a música era tocada, Thomas Edison se sentava próximo ao instrumento e punha os dentes no piano " ... para que a vibrações ressoassem nos ossos do seu crânio..." Ele recebia um "feedback", através dos dentes, da maior parte das notas tocadas. Até hoje ainda é possível ver as marcas de seus dentes no piano que se encontra na residência em que ele morava.

Em 1915, Thomas Edison assumiu a tarefa de contratar artistas para gravarem para a sua emprega se fonógrafo. Esse processo era conhecido por aquisição de um "catálogo". Muitos achavam estranho que alguém com tanto problema de audição fosse o único responsável pelo julgamento da música e dos artistas. Enquanto atendia à sua responsabilidade de ouvir às gravações de fonógrafo, Thomas Edison valia-se de uma técnica semelhante à técnica descrita anteriormente. Ele colocava sua cabeça contra o fonógrafo e mordia a madeira com os dentes para "ouvir" os sons mais fracos.

Durante a Primeira Guerra Mundial (1917-1918), Edison liderou Comissão de Consultoria Naval. Ele dirigiu a pesquisa sobre mecanismos de torpedos e aparatos anti-submarinos. Parece irônico que seu filho Charles tenha sido rejeitado para o serviço militar devido à sua própria deficiência auditiva.

À medida em que Thomas Edison se aproximava do fim de sua vida tão produtiva, ele se tornou quase que completamente surdo. Sua secretária era paciente e filosófica com relação a lidar com sua perda auditiva e quase nunca fazia referências a isso.

O ano de 1929 foi designado como o "Jubileu de Ouro da Lâmpada", o 50º aniversário de "nascimento" da lâmpada elétrica. Henry Ford, o magnata dos automóveis criou, em Greenfield Village (Dearborn, Michigan) o "local permanente do nascimento da lâmpada". O laboratório de Thomas Edison foi removido de Menlo Park e estabelecido como uma exibição de museu. Ford também trouxe a estação de trem onde o incêndio químico da juventude de Edison havia acontecido.

Edison recebeu muitas honrarias em seus últimos anos de vida e, brincando, disse que podia "... contar suas medalhas em litros". Entre essas premiações estava uma medalha de ouro especial do Congresso por suas "contribuições ao bem-estar da nação".

Thomas Edison faleceu em 18 de outubro de 1931 e foi enterrado em Orange, New Jersey. Em 1960 ele foi eleito para a "Galeria da Fama dos Grandes Americanos" na Universidade de Nova Iorque. Seu laboratório em West Orange e a sua casa em Glenmont, próximo ao laboratório, foram dedicados em conjunto como sendo o "Ponto Histórico Nacional de Thomas Edison". Jornais e os primeiros modelos de invenções estão exibidos ali, e os cômodos foram preservados como foram deixados pela família Edison.

Sobre trabalho e genialidade, Thomas Edison disse o seguinte

"Não há substituto para o trabalho duro"
"Gênio é 2% inspiração e 98% transpiração".

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