KEVIN HALL: "DEIXE SEU MEDO DE LADO E PENSE GRANDE"

Por Stan Griffin
Traduzido para o português por Patricia e Walter de Castro

 

Tornar-se um golfista profissional de classe internacional é um desafio para todo jovem que alimenta esse sonho. Contudo, Kevin Hall tem obstáculos extras para superar: ele não apenas é afro-americano, mas também surdo.

Aos 16 anos, Kevin Hall conheceu seu ídolo, Tiger Woods, quando freqüentava uma clínica de golfe onde Woods lhe deu alguns conselhos sobre seu backswing. Woods lhe disse ainda: "Vejo você no Tour qualquer dia!", referindo-se aos muitos torneios anuais da PGA (Associação de Golfistas Profissionais).

Seis anos mais tarde, depois de vencer o Campeonato de Golfe Big Ten e tendo-se formado pela Universidade do Estado de Ohio, Kevin lembrou-se das palavras de Tiger Woods. Desde então uma das metas de sua vida é tornar-se profissional e participar do Tour. Kevin Hall foi o primeiro afro-americano a se classificar para uma bolsa de estudos de golfe na Universidade do Estado de Ohio e tornou-se seu primeiro golfista surdo. E, até agora, a PGA “...não conseguiu encontrar um registro de qualquer outro golfista surdo a jogar no Tour”.

No ano em que se tornou profissional (2004), Kevin participou de alguns eventos oficiais do Tour, mas ainda "...está esperando para descontar seu primeiro cheque como profissional...". Ele agora espera "...passar os ‘cuts’ nos torneios (jogando bem nas rodadas iniciais para obter boa colocação nas rodadas finais)... ganhar experiência que será preciosa para os anos (vindouros) ... melhorar cada hora de saída e ... usar este ano como alavanca ..." (para o sucesso futuro).

Kevin Michael Hall nasceu prematuro de seis semanas em Cincinnati, Ohio no dia 24 de setembro de 1982. Seu pai é Percy Hall, um açougueiro aposentado; sua mãe é Jackie Hall, uma analista comercial. Ele tem uma irmã mais velha: Oris.

Kevin  nasceu pesando pouco mais que 1,360 kg e, por isso, passou os primeiros 20 dias de sua vida na incubadeira. Durante seu segundo ano, foi acometido de uma forma de meningite. Ele lutou por um mês, tendo febres que chegavam aos 39 graus. Os médicos temiam "que ele pudesse morrer ou tornar-se um ser vegetativo..." As duas previsões não se confirmaram mas, infelizmente, durante essa batalha ele perdeu a audição. E hoje ele diz que não é capaz de se lembrar de nenhum som.

Percy e Jackie apoiaram Kevin desde o começo, adotando a atitude de que ele deveria “...meter as caras ... experimentar ... agir como as pessoas ouvintes ... de modo que ele soubesse o que viria pela frente". Eles ensinaram a ele o alfabeto de sinais, a escrever e a contar.

Seus pais insistiram no seu "...aproveitamento escolar". Aos três anos, Kevin foi matriculado no jardim da infância da Escola Santa Rita para Surdos em Cincinnati, onde permaneceu até a sua formatura no segundo grau. Foi na Escola Santa Rita que ele aprendeu a leitura de lábios e a linguagem de sinais.

Kevin tinha talento para o esporte, especializando-se em beisebol e boliche. Quando ele tinha nove anos, um amigo da família o levou a um campo de golfe. Foi “amor à primeira vista” para Kevin. Imediatamente, sem nenhuma instrução, ele dominou seu swing como se jogasse há anos. Kevin foi totalmente ”fisgado”!

Como a Escola Santa Rita não tinha uma equipe de golfe, os pais de Kevin pediram e conseguiram da diretoria da escola que o deixassem jogar para a escola vizinha, a Winton Woods High School. Ali ele foi merecedor de uma carta de excelência nos esportes durante quatro anos por suas conquistas no golfe. Ao final de sua carreira no segundo grau, ele era o melhor golfista pré-universitário de Cincinnati e de todo o estado de Ohio.

Kevin se formou em primeiro lugar na Escola Santa Rita, sendo o orador de sua turma. Ele gostava da “tradição de golfe” da Ohio State University, onde se distinguiu por ser o primeiro aluno negro e deficiente auditivo a classificar-se para uma bolsa de estudos baseada em suas habilidades no golfe.

Os anos de Kevin na Ohio State University culminaram com ele se tornando campeão do Big Ten de golfe. Além do seu sucesso nos campos de golfe, ele se formou em jornalismo com louvor.

Enquanto freqüentava a Ohio State University, Kevin contava com um intérprete para as aulas. Durante seu ano de calouro, este até o acompanhava quando a equipe de golfe viajava para jogos “fora”, o que permitia a Kevin participar de jogos amistosos com seus companheiros. Sua transição para as competições universitárias não foi fácil a princípio… Kevin diz: “Foram semanas até que todos se sentissem à vontade…” Por fim, eles iam se conhecendo e então as “barreiras” desapareciam.

Após alguns treinos, Jim Brown, treinador da equipe de golfe da Ohio State, foi se acostumando à voz de Hall e podia ler seus lábios. Brown até aprendeu alguns sinais relacionados ao golfe.

Kevin encontrou algumas diferenças importantes entre o golfe universitário e o jogo profissional. Três delas: (1) a rapidez de jogo é maior e os jogadores são pressionados a “avançar”; (2) os espectadores são muito, muito mais numerosos e podem se tornar uma distração e (3) a colocação dos pinos (onde o ‘cup’ é colocado próximo ao buraco) pode ser – e freqüentemente é – alterada de um dia para o outro.

A comunicação entre Kevin, seu caddy e os parceiros de jogo durante um torneio é muito importante. Ele é um ótimo leitor de lábios, mas tem também um sistema de apoio para emergências. Seu celular pode ser usado para digitar mensagens de texto para os outros, se necessário.

Postura de Kevin na sala de aula, bem como no campo do golfe: “Não o trate como um deficiente… nenhum favor especial… (ou) extensão de prazos… (ou) clemência…”

Com 1,73m de altura e pesando 79,5kg, Kevin poderia ser considerado “pequeno”. Mas ele percorreu um longo caminho desde quando era um “bebê de incubadeira” pesando 1,360kg até vir a competir com os melhores golfistas no mundo.

Ele não gosta de se considerar um “bom exemplo”, mas continua a voltar ao Santa Rita para falar aos alunos “sobre a vida”. Com freqüência ele está em companhia de seu amigo Chad Metcalf. Eles se conhecem há 15 anos e foram colegas de classe no Santa Rita.

Kevin costuma dizer: “Enquanto estiver fazendo boas coisas na vida e ajudando outras pessoas, estou contente”.